Burnout nos Aplicativos de Namoro

Updated: May 23, 2020

A teoria da máxima eficiência do mercado aplicada ao amor, o paradoxo da escolha, o monopólio da economia da paquera e como driblar o burnout dos aplicativos de namoro.


Photo by Courtney Clayton on Unsplash


O amor parece um fenômeno aleatório, com causas desconhecidas, mas um olhar atento pode explicar muita coisa. Nesse artigo, me debruço no burnout que muitos usuários de aplicativos de namoro relatam sentir. Eu já escrevi sobre o sexo como biohacking e a verdade é que depois do dopamina fasting, eu não tenho paciência para me dedicar aos aplicativos de namoro. Mas relações sexuais e amorosas são muito importantes. Então vamos entender o fenômeno para não ficarmos a mercê dele.


Então eu me lancei na missão de entender o burnout dos aplicativos de namoro como um empreendimento pessoal. O problema está no design dos aplicativos, no comportamento das pessoas ou o problema sou eu e as outras pessoas estão tendo resultados melhores?


A história e número dos aplicativos de namoro

Para responder essa questão, primeiro vamos olhar para os aplicativos de namoro. Um dos primeiro aplicativo de namoro foi Grindr, lançado em 2009. O aplicativo de geolocalização é focado em namoros homoafetivos e bissexuais. O projeto é de Joel Simkhai, que criou depois, em 2011, o Blendr, um aplicativo de namoro de propósito geral. No ano seguinte, o Tinder foi lançado e foi seguido de inúmeros concorrentes.


Com a lista abaixo, de diferentes aplicativos de namoro, é possível ver que além de muita opção, eles são criados para públicos e comportamentos específicos. Por exemplo, o Bumble é um aplicativo em que apenas as mulheres podem iniciar a conversa. O aplicativo é construído para um público específico, como homens que gostam de ''mulheres empoderadas''e mulheres que não se importam de iniciar as conversar. No Brasil, o OkCupid é usado por pessoas de esquerda que buscam fugir do “padrão-tinder”, esse não é explicitamente o objetivo do aplicativo, mas seu design resulta nesse comportamento/ público.

mapeamento feita pela autora


Independente de qual app é usado, a verdade é hoje, os aplicativos de namoro se tornam a forma mais comum de se buscar um companheiro, flerte ou sexo sem compromisso. Um estudo publicado pela National Academy of Sciences indicava que 40% dos encontros seriam iniciados através de aplicativos e a tendência seria crescente. Ao mesmo tempo, todos as outras formas de encontro encontrariam-se em rápido declínio.




A máxima eficiência do mercado aplicada ao amor

Apesar do interesse evidente que as pessoas tem nos aplicativos de namoro, o amplo público visado pelos apps e a hegêmonia dos apps no campo do amor, as críticas aos apps são tão populares quanto a sua abrangência.


Apesar da variedade de críticas, uma me intriga em especial: o relato de burnout no uso dos aplicativos de namoro. Eu já ouvi muitas pessoas dizendo que os aplicativos não funcionam propositalmente, que eles querem induzir os usuários ao upgrade para a versão paga. Ou que ele não funcionam depois de um tempo, só no começo.


Seja qual for a explicação, é comum que a experiência de longo prazo nos aplicativos resultem em frustração e esgotamento. Já aconteceu comigo e imagino que se você esteve solteiro em algum momento nos últimos 5-6 anos, já deve ter acontecido com você.


Meu primeiro encontro no Tinder aconteceu em 2015, algum tempo após o término de um relacionamento. Eu tive meia dúzia de encontros interessantes até começar a namorar uma pessoa que conheci no aplicativo. O relacionamento durou três anos, moramos juntos e tivemos ótimas experiências. Foi um relacionamento realmente incrível.


Depois de um tempo desse término, em outra cidade e em outros contexto, eu voltei aos aplicativos (destaque ao plural). Dessa vez, minha sorte foi diferente. Eu tive muitos encontros e apesar de algumas relações bem interessantes, a sensação geral foi de muito tempo perdido e pouca eficiência.


Mas eficiência em que? O que queremos dizer quando falamos que os aplicativos não funcionam? Que perdemos tempo?

O capitalismo está em tudo e o amor com certeza não saiu totalmente ileso. Isso fica muito evidente quando, assim que estamos solteiros, dizemos “ vou ver como está o mercado”. A verdade, é que principalmente nos grandes centros urbanos, entre trabalho e transporte, você gasta pelo menos 11 horas da sua vida. Então o tempo se torna escasso e muito valioso. É compreensível que as pessoas sofrendo de burnout no trabalho, busquem otimizar suas relações. Mas elas estão encontrando burnout também no amor.


Mas os aplicativos vendem a ideia da máxima eficiência com menor esforço. Abra o cardápio, faça sua escolha. Encontre sem sair de casa o seu novo amor. E é exatamente isso que esperamos encontrar. A historiadora Moira Weigel, em seu livro Labour of Love, apresenta um insight muito interessante.


Namorar sempre foi difícil , mas é a primeira vez em que gastamos mais tempo com o processo de seleção auto-apresentação, do que na própria relação.

Nós conseguimos! Transformamos os aplicativos em mais uma forma das pessoas se sentirem sobrecarregadas. A modernidade criou o burnout dos aplicativos de namoro.


Explicando o burnout dos aplicativos de namoro

Eu gostaria de explorar duas hipóteses: (a) o paradoxo da escolha e (b) o aumento do consumo através da eficiência. Levando em conta a variedade de aplicativos e de design e a pouca influência que os aplicativos têm nas relações depois do match, escolhi explorar hipóteses que voltam-se às pessoas e não à influência dos design dos aplicativos.


A Paradoxal (ilusão) da Escolha

They may hate McDonald's, but they certainly hate

uncertainty even more - Nassim Nicholas Taleb


Teoria (a)

O paradoxo da escolha é a teoria de que a multiplicidade de escolha resulta em frustração e não em satisfação. Bem diferente do que o nosso senso comum supõe. Um exemplo: você entra em um restaurante, o garçom atencioso te traz um cardápio e pergunta se você quer ajuda. O cardápio é um livro e o garçom parece que nunca mais vai parar de falar. Você não tem ideia do que quer. No final, você só quer ter que escolher entre poucas opções e provavelmente vai ficar com a opção mais familiar.


Teoria (b)

Uma outra teoria interessante que pode nos ajudar a pensar o burnout dos aplicativos, é a do economista William Stanley Jevons, que descobriu que as pessoas tendem a aumentar seu consumo quando um recurso é disponibilizado com eficiência. Sob essa ótica, o swipe dos apps tornou o consumo das pessoas muito eficiente, então as pessoas deslizam cada vez mais. E dão cada vez mais matchs. Mas , talvez não percebamos que consumir as pessoas é diferente de se relacionar com elas.


Os aplicativos são como os livros-cardápios. Mas há tantas escolhas que você não faz a menor ideia do que quer. E diferente dos restaurantes, em que depois de escolher não há volta, nos aplicativos sempre dá pra voltar e escolher outra opção. Essa ilusão de abundância faz com que tenhamos a impressão de que o mundo está cheio de pessoas solteiras e incríveis.


Assim, ao invés de nos dedicarmos às relações, esperamos que aquele oceano de opções resulte, sem esforço e com eficiência, em encontros maravilhosos. Se nos deparamos com o menor desentendimento, abandonamos o barco e voltamos à ilusão, nadando até o burnout atrás das opções infinitas. E claro, se você não se dedica, porque eu me dedicaria?


Quando os relacionamentos modernos encontram o paradoxo da escolha e a ilusão da abundância, o resultado é óbvio: um exército de pessoas que iludem a si mesmas, dizendo que estão buscando relacionamentos, quando na verdade só estão viciadas nas micro-doses de hormônios que nossos cérebros liberam quando recebemos um match. Eu sei, o ego é uma merda.


Com a ascensão de fenômenos como o benching e obligaswiping e sua subsequente denominação, talvez percebamos que a função real dos aplicativos está sendo afastar o desespero ao mostrar que há infinitas possibilidades e não a promoção de relações.



O Monopólio dos Aplicativos na Economia da Paquera e o exército de covardes

O gráfico exibido no início desse artigo mostra o monopólio dos aplicativos na forma como as pessoas tem se relacionam amorosamente e sexualmente. É como se agora, todos àqueles lugares em que poderíamos paquerar tivessem deixado de existir, se tornado sagrados e qualquer desvio é uma profanação. Trabalho? É pra trabalho! Amigos? Amizades. Igreja só pode rezar. Vizinhos? Eu tenho algum?


Além dos fenômenos citado, ainda vivemos a multiplicidade das opções em termos de orientações sexuais, gêneros e formatos de relacionamentos. Eu, mulher hetero flexível, procuro um relacionamento sério não monogâmico. Mas eu não posso dizer isso. Relacionamentos sérios vão assustar homens e aqueles que não vão se assustar, não vão aceitar um relacionamento não monogâmico. A estratégia genial? Apatia, frieza e não-emoção, em que o primeiro a confessar sua frustração ou sentimento, perde. As regras não são óbvias, mas ninguém ousa perguntar.


O monopólio dos aplicativos como o ambiente ideal das relações criou bares e baladas em que ninguém interage com estranhos. As pessoas saem com os amigos e ficam com amigos. Ou, no máximo, beijam estranhos alcoolizados e tudo acaba naquela troca de fluídos.


Felizmente, eu tenho muita facilidade em falar com estranho e já vivi momentos em que após conversar com dezenas de estranhos em um pub, comecei apresentar uns aos outros. As pessoas sempre dizem: mas vocês não se conheciam antes? Como assim? Também já vivi momentos em que precisei incentivar pessoas a conversar com minhas amigas - depois de horas em que eles apenas olhavam para elas.


A verdade é que a existência dos aplicativos desencoraja e deseduca as pessoas a procurarem romances no cotidiano. Os aplicativos criam uma economia de paquera além de monopolizada, praticamente sem risco e sem sentimentos. O match indica que a pessoa te acha atraente. Se a conversa fluí, as cartas estão na mesa. Se tudo der errado, era apenas um estranho.


Em relações não virtuais, o negócio é muito diferente. Você precisa sair da sua zona de conforto, você precisa demonstrar algo para que algo aconteça. É preciso abraçar o jogo de gato e rato para descobrir se a pessoa tem interesse. Se ela tem um companheiro. E você precisa ser cuidadoso e cauteloso com a relação que pré-existe ao romance. Flertar em relações presenciais requer comunicação não verbal, coragem e delicadeza. E os aplicativos são contraprodutivos nesse aspecto.


Mas então, se você está vivendo o burnout dos aplicativos, mas é praticamente a única forma que as pessoas utilizam para se encontrar, quais as opções?


Você continua com a frustração na esperança de algum dia um zumbi voltar do ghosting? Desiste e começa a falar com estranhos, correndo o risco de parecer um doido? Assume que talvez o amor não seja pra você?


Driblando o burnout do amor


Hoje, o amor se positiva em sexualidade, a qual também está submissa à ditadura do desempenho. Sexo é desempenho. Sexyness é capital que precisa ser multiplicado. O corpo, com seu valor expositivo equipara-se a uma mercadoria. Não se pode amar o outro, a quem se privou de sua alteridade, só se poderá consumi-lo. - Byung Chul Han


Flertar ao vivo é uma delícia e todo mundo deveria (re)tentar. Uma brincadeira que me ajuda muito é o ato de olhar para um estranho e (tentar) manter o olhar por oito segundos. Pode parecer besteira, mas é muito difícil e produtivo. Nós desaprendemos a paquerar e olhar para alguém parece uma ofensa. Mas demonstrar interesse não é uma blasfêmia e você não é inferior por isso. Na verdade, atualmente, é um ato de coragem. Se a pessoa retribui o olhar e é comum que sim, você só precisa ser criativo e comentar qualquer coisa. A ideia é se arriscar, até porque levar um fora não é o fim do mundo.


Mas acredito que também exista uma forma mais interessante de utilizar o aplicativos. O primeiro passo é aceitar que os relacionamos são difíceis e as frustrações são parte do processo de se relacionar e uma forma de fortalecê-las não seu fim.


Tornar as relações antifágeis é a melhor forma de produzir boas relações. Os românticos do mundo estão se revirando no túmulo agora, mas a verdade é que desde que o amor romântico nasceu no século XVIII , amar e sofrer sempre estiveram relacionados.


A ideia é que talvez valha muito mais a pena se dedicar à poucas relações, aceitando suas frustrações e imperfeições e não abandonar o banco na primeira tempestade, voltando ao mar de opções.


Relato: Eu conheci um rapaz, conversamos por muito tempo, nos encontramos muitas vezes e ele sempre foi muito atencioso, mas a relação sempre foi tensa. Divergências políticas eram a norma. Eu quis jogar a relação no lixo infinitas vezes. Um dia, tivemos um conflito, eu fiquei realmente chateada e segui a regra da frieza e sumi. Duas pessoas que conversavam quase todos os dias durante meses deixaram de conversar como se a relação não existisse.


Depois de ter feito as reflexões que compartilhei aqui, mandei uma mensagem. Contei como me senti. Disse que fiquei chateada, que a relação significava algo pra mim. Ele pediu desculpas, perguntou se eu gostaria de conversar sobre isso ao vivo. Se relacionar é isso, ser corajoso e abraçar a fragilidade. E eu garanto, é muito melhor do que o burnout.


Atualmente, minha regra é falar o que eu sinto, ir atrás e fugir de toda e qualquer frieza - minha ou das pessoas.

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