16 tendências e auto-relatos do Amor Millennial

Updated: May 21, 2020

16 tendências e relatos de experiências que exemplificam e colocam em perspectiva a nova dinâmica do amor millennial.

Photo by Hendo Wang on Unsplash



A tecnologia tem mudado muito nossa vida e transformando a forma como nos relacionamos. As pessoas somem do nada, quando tudo parecia estar indo bem. Só respondem com emojis. Passam horas nos aplicativos sem intenção de sair com as pessoas. Passam o número e não respondem. Muitas vezes difícil entender o que está acontecendo e flertar parece um campo minado. Mas nomear as coisas é uma boa forma de começar a entender fenômenos complexos.



Por isso, separei 16 tendências e relatos de experiências que exemplificam, tentam explicar e colocam em perspectiva a nova dinâmica do amor moderno. Espero que no final desse artigo você tenha feito boa viagem pelas tendências millennial dos dating e possa compreender melhor o amor na contemporaneidade.



Ghosting, a mãe das ignoradas digitais


A mãe de todas as tendências millennials de namoro. Poucas pessoas devem ter tido o privilégio de não passar pelo ghosting. O que provavelmente era chamado de "dar um gelo" foi renomeado como "ghosting" pelo millennials. A tendência de comportamento se refere ao desaparecimento completo, sem aviso e inesperado do crush. O fenômeno normalmente não tem qualquer causa aparente. A pessoa do nada some, não responde e faz de conta que nunca aquela relação existiu. Ela se torna um fantasma.


Relato: Meu ghosting mais esquizofrênico aconteceu com o meu primeiro date do Okcupid (recomendo a leitura sobre a fadiga dos aplicativos). De início, tivemos conversas densas sobre trabalho na economia informacional. Ele, como advogado trabalhista e pós-doc, tinha opiniões realmente interessantes sobre o tema e me indicou autores muito interessantes. Saímos duas vezes na mesma semana e rolou muita química e atração intelectual - pelo menos do meu lado. Estávamos próximos do final do ano e no segundo date ele me deu uma garrafa de vinho. O meu favorito, ele disse. Tudo parecia bem! Eu viajei pouco tempo depois do segundo encontro, então continuamos a relação virtualmente. Conversamos normalmente sobre nossas viagens e planos e ele me enviava muitas fotos 🔥. Um dia, ele não respondeu mais. Depois de dois meses, eu enviei uma foto bebendo o vinho, com frases - embriagas- um tanto sem sentido. E ele realmente continuou um fantasma.


Soft ghosting e as curtidinhas irritantes


O Soft Ghosting é a versão Schrödinger's do ghosting. É quando a pessoa ao mesmo tempo te ignora e não te ignora. Ele pode responder sim, não, hmmm ou continuar enviando reações (como curtidas ou emojis). Mas ela realmente não está interessada em te dar muita atenção. Você está jogando sozinho. Pode ser que a pessoa está ocupada ou que não sabe bem o que responder. Assim como pode ser que ela realmente não tem interesse, mas espera que responder com um joinha seja mais educado do que te ignorar.


Eu sou muito sistemática e nesses casos, eu gosto de aplicar a regra do 2 é bom e três é demais. Se eu realmente estou interessada, acho que vale a regra do #euquelute. Então eu voltar a interação, fazendo perguntas - já que elas não podem ser respondidas com emojis e curtidas. E insisto duas vezes. Se não adianta, eu dou game over - pelo menos no momento.


Relato: Há uma questão que me intriga nas minhas experiências com soft ghosting. Elas sempre foram com gringos que haviam me chamado para encontros que por motivos diversos, não haviam acontecido. Acredito que diferenças culturais e barreiras de idioma podem ter sido um problema.



Orbiting

Visto que você nunca me ligou

Mas pergunta por aí como é que eu tô

De que tipo é o seu amor?

Me explica que eu tô tentando entender

Onde você quer chegar. - Duda Beat


O orbiting é o irmão mais novo do ghosting que ainda não sabe exatamente o que quer ou está “garantindo para o futuro”. É aquele crush antigo que sumiu, mas não completamente. O orbiting continua visualizando stories, curtindo fotos no feed e retuitando tweets, mas nunca fala com a pessoa. Ele intriga, afeta a trajetória e se faz visível só para continuar ignorando a relação. Ele só quer orbitar. As motivações do orbiting são obscuras. Mas um chute seria de que eles estão tentando manter-se no radar com pouco esforço, para resgatar a relação no futuro, se for interessante.



Benching & Obligaswiping

Energias libidinosas são espalhadas

como investimento de capital

sobre vários objetos para

evitar o prejuízo total. - Byung Chun Han


O benching é uma das tendências que mais me intriga. Inclusive, tem um post inteiro dedicado a ela. O Benching referê-se a abundância que causa paralisia ou se tornam ineficientes. Uma pesquisa desenvolvida pelo Journal of Social and Personal Relationships mostrou que o uso excessivo dos aplicativos de namoro pode ter resultados negativos, diminuindo inclusive a própria eficácia do aplicativo. A tendência também é conhecida como o paradoxo da escolha. Normalmente, o benching acontece junto ao obligaswiping, quando a pessoa desliza sem parar, sem nenhum acompanhamento real. Talvez as pessoas queiram um flerte rápido. Matar o tédio do momento. Ou só receber aquela dose viciante de hormônio que nosso cérebro despeja quando recebemos um match.


Relato: uma amiga contou que durante um surto de libido ela deu swipes animadamente e começou a conversar com 48 rapazes. Ela é muito criativa e comunicativa, então as conversas começaram super bem. Depois de uma semana, ela estava conversando com cinco rapazes. Depois de outra semana, apenas um dele permaneceu. Depois de um pequeno desentendimento, ele também sumiu. Dos 48, restou apenas lembranças da euforia.



As relações periódicas: Cuffing, Scrooged & Marleying


O cuffing refere-se a tendência que as pessoas tem se sentem mais atraídas por relacionamentos no inverno. A ideia é simples, quando as temperaturas caem, tendemos a ficar mais em casa, a socialização pode ficar mais difícil. E no fim, uma cama quente é normalmente uma cama mais interessante. Se o inverno se aproxima e você se sente mais carente ou aquele crush parece querer acelerar as coisas, talvez você esteja vivendo o cuffing.


Outra relação periódica é o scrooged, ato de se esforçar para não intensificar uma relação antes do Natal. De acordo com uma pesquisa da eharmony, quase uma em cada dez pessoas evita levar a sério um parceiro pouco antes do Natal. Rachael Lloyd, especialista em relacionamentos da eharmony, diz: “Sabemos que os relacionamentos podem se tornar menos prioritários antes do Natal. É também um momento em que o namoro fica mais lento. De fato, um quarto (24%) dos britânicos concorda que é hora de priorizar a família e os amigos acima do romance.


O Marleying é quase o contrário do Scrooged. Cunhada pelo site de namoro eHarmony, “Marleying” refere-se a tendência de entrar em contato com o ex perto de períodos festivos íntimos, como o Natal. Durante esse período, é comum que estejamos mais introspectivos e nostálgicos, Nesse momento, as pessoas parecem mais propensas a reatar relações passadas. O desejo de reviver momento se aflora e o ex se torna o alvo desses sentimentos.



Deflexion & Rossing


O momento é delicado. Você quer fazer uma pergunta, mas não se sente confortável, afinal não está claro o que está rolando. Você quer perguntar o que vocês tem ou quer fazer um convite para um final de semana mais intimista. Ou quer declarar que “sente uma coisa a mais”. Você usa todo o seu poder de retórica e pergunta, sem perguntar diretamente. A pessoa responde como você, sem responder diretamente. Ou ela sutilmente ignora sua questão.


Nesse momento, nosso mecanismo de defesa fica eriçado. Você responde um negócio mais abstrato ainda e no final, ficou mais confuso do que de início. Você está vivendo a deflexão. Apesar de não haver nada de novo na deflexão, a tendência tende a se acentuar numa era em que o rossing é norma dos relacionamentos.


O Rossing é um termo cuja origem é um episódio de Friends em que Ross e Rachel discutem e ele sai com outra mulher, justificando mais tarde que eles haviam dado um tempo. O Rossing refere-se aquele limbo em que você não sabe se está namorando, se é um relacionamento exclusivo, se a outra pessoa espera sua fidelidade ou se você precisa ser fiel. A liquidez das relações e a ascensão da monogamia só torna tudo isso mais complicado.


Relato: Eu tenho um relacionamento há meses com uma pessoa, nós conversamos quase todos os dias. Ele viaja muito, então nos encontramos pouco. A relação, na minha perspectiva é “na medida certa”. Nos damos extremamente bem, principalmente intelectualmente. É um relacionamento muito presente em que ninguém cobra nada. Conversamos sobre assuntos “restritos”, que não podem ser desenvolvidos com qualquer pessoa. Mas nunca conversamos sobre nossa relação. Um dia, eu disse que estava apaixonada (sem citar pelo quê/quem). Ele pediu para que eu contasse mais. Eu desviei a questão para o lado intelectual. Ele seguiu na deflexão. Rossing & Deflexão 1, Clareza e maturidade, 0.



Dracula-ing

Vampiros são personagens noturnos, que sugam sangue, drenam a vida e muitas vezes te atraem de formas irresistíveis. O dracula-ing é aquele crush que só vai te chamar pra sair de noite. Ele vai te ligar de madrugada e te convidar pra um #netflix. É como se ele se queimasse quando o sol nasce. Se você só recebe aquele convite após o anoitecer, talvez você esteja saindo com drácula, que só quer sugar sua energia sexual.


Relato: Pra mim, o drácula-ing é bem complexo. Quando você mora em São Paulo e trabalha com o mercado financeiro, como é o meu caso, é extremamente comum que os dates aconteçam de noite. Todo mundo trabalha até tarde e muitas vezes o final de semana é reservado para mil coisas. Eu já tive um relacionamento dracula-ing que durou alguns meses. E só me incomodou em um momento específico. Nessa relação, o hábito era um fator bem relevante. A pessoa era super caseira e fazia home-office, então muitas vezes ele acordava tarde e trabalhava até de noite. Os convites noturnos eram a regra. Apesar dessa recorrência, a relação sempre foi muito complexa, com intimidade e muita conversa. Ele talvez tenha sido uma das relações com quem eu mais discuti -noturnamente - com clareza meus sentimentos.



Zombied ou oi sumida

O Zombied é a volta do ghosting ou orbiting. Um dia, sem mais ou menos, a pessoa surge e te mando um oi, pergunta como você está. Responde seu stories. Ela surge dos mortos, como um zumbi. A internet torna muito fácil sumir, mas também é muito fácil renascer. Afinal, o que tem em jogo? Mais um ghosting na conta? À medida que a tecnologia avança, se torna mais fácil começar uma relação virtual com alguém. A pessoa pode ter terminado um namoro e estar a caça ou realmente está querendo refazer a conexão. Talvez elas estejam curiosas. Talvez depois do oi elas sumam de novo.



Dial-toning & Glamboozling

Esse fenômeno é até engraçado. O termo é usado para descrever quando alguém dá o número de telefone, mas nunca responde à mensagem. É quase como se nosso interesse não conseguisse transpassar a dificuldade de mudar de aplicativo. Talvez não sejamos tão ominichannel assim. Eu tive um professor de sociologia da sexualidade que sempre “zombou” da minha classe, dizendo que não conhecia nenhuma geração mais broxa que a nossa. Camisinha? Broxo. A pessoa não corresponde a todos os meus padrões? Broxo. Mudou de aplicativo? Broxo.


Na mesma linha de atitudes completamente no-sense, temos o glamboozling. A pior tendência dessa lista e a menos subjetiva em termos do sinal que passa. Glamboozling refere-se aos encontros desmarcados nos últimos minutos do segundo tempo. Ou quando pouco antes do encontro você se depara com o ghosting.


Eclipsing

Você já se deparou com alguém que milagrosamente gosta das mesmas coisas que você? Ou que do nada se interessa por aquela atividade que ninguém mais gosta? Um dia você acorda e pessoa te diz que também é fascinada por ex libris. Qual a chance, jovem? Eclipsing é o fenômeno em que uma pessoa adota os mesmos hobbies que a pessoa que está namorando ou interessada.



Typecasting

O tycasting é simples: refere-se à pessoas que só saem com pessoas muito compatíveis. O crush precisa ter o mesmo gosto musical, o mesmo posicionamento político e quem sabe, compatibilidade astrológica. Fugiu disso? Nem pensar. Apesar de ser aparentemente lógico que busquemos pessoas com interesses comuns, a tendência pode estar tomando outra escala atualmente. Alguns filósofos têm chamado a atenção para a erosão da alteridade nas relações. Nós queremos nos relacionar com nós mesmos, não com outras pessoas. A acentuação do typecasting seria sintoma de uma sociedade da positividade, que só aceita likes e não dislikes. De uma sociedade que foge de qualquer intensidade e complexidade das relações, que só quer se relacionar com o liso, com o igual e que não causa qualquer dor ou reflexão.


Relato: Eu sou antropóloga e trabalho há um tempo com economia digital. Então eu sempre estive aberta à alteridade, frequentando ao mesmo tempo os botecos da Jaú com cientistas sociais e os bares do Itaim com colegas do mercado financeiro. O resultado? Maravilhas e tragédias gregas. Dois casos merecem destaque.


Começei uma conversar no tinder sobre política e criptomoedas, com um cara super bonito. Ele, tão entusiasta como eu dos temas, levou a conversa de forma empolgante. Quando ele me passou seu instagram, a primeira hesitação: o rapaz tinha 50 mil seguidores, incontáveis prêmios de kart, uma empresa própria e outras infinitas conquistas. Nesse momento, todos os demônios da insegurança saem pra brincar no play. Mas continuamos a conversar normalmente e ficou um pouco claro que tirando o interesse em política e economia, nossos mundos eram bem diferentes. Eu e meus demônios não conseguimos nos segurar e acabamos perguntando: Tu tem certeza? Pra mim ta muito evidente que eu sou muito não-typecasting, tu não acha? Ele concordou mas disse que ainda queria o encontro. O date foi ótimo e nos demos super bem sem todos os aspectos.


Mas como nem tudo são flores, a flexibilidade pode dar bem errado. Eu dei um match com um cara lindo, daqueles que tu pensa: foi engano ou sairei sem algum órgão. Ele era da inteligência da polícia e eu anarquista desde que me entendo como gente (essa informação sempre esteve no meu perfil). Mas o papo no app foi bom e ele era lindo, então porque não? O date foi uma tragédia do início ao fim. Não concordamos em absolutamente nada e ele foi super agressivo, até achei que ele ia me bater. No fim, eu tive um recalibramento bem intenso sobre essa flexibilização e aprendi melhor sobre o que definitivamente não é o meu tipo.


Conta aí:

Quais experiências caricatas das tendências você já vivenciou?

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